O BACILO DA FEBRE AMARELA

Os relatos mais antigos sobre doenças com características atribuíveis à febre amarela1 são de meados do século XVII. Referem-se a surtos recorrentes em ilhas do Caribe, na península de Yucatan e em portos do sul norte-americano.

Em 1685 a doença chegou a Recife e no ano seguinte a Salvador, fez centenas de mortos em ambas as cidades. Após o surto inicial a virulência diminuía, as poucas vítimas restringiam-se a sertanejos e estrangeiros recém chegados. Na ausência de novas epidemias graves, durante um século e meio não houve mais menção à "febre das Antilhas" no Brasil.

A doença foi reintroduzida na Bahia em fins de 1849. Alastrou-se rapidamente pela cidade e durante muito tempo castigou Salvador a cada verão. No mesmo ano foram registrados surtos em Recife e no Rio de janeiro, onde em três meses 54% dos 166.000 habitantes adoeceram e 4.000 perderam a vida.

No início dos anos 1850 propagou-se rapidamente pelas províncias litorâneas seguindo as rotas de navegação: Pará, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão, Espírito Santo, Santos, Paranaguá e Florianópolis. O Amazonas foi atingido em 1856, e o Piauí em 1861, na cidade de Parnaíba.

Em cada uma repetiam-se os mesmos fenômenos observados desde 1685. Um surto inicial violento de poucos meses e a progressiva diminuição do número de casos, limitados a pessoas vindas de fora (sertanejos e estrangeiros). Atingida a capital a doença espalhava-se pelo interior de cada província.

Na capital do Império a doença reaparecia regularmente na "estação calmosa". Em alguns anos era branda, com poucas centenas de óbitos, em anos de surtos violentos os mortos passavam de mil, em 1873 e em 1876 chegariam a mais de 3 mil. A cada verão os que tinham recursos refugiavam-se nas cidades serranas, local considerado seguro pelos médicos.

As providências para conter a doença eram semelhantes às adotadas em Recife e Salvador em 1685 e não evitavam novos surtos. A imposição de quarentena aos navios e o isolamento dos doentes em hospitais distantes visavam evitar a "transmissão"2. Para combater os ”miasmas infecciosos" prescreviam-se sepultamentos em locais afastados, limpeza das ruas, a queima de ervas aromáticas em fogueiras acesas nas praças e esquinas e, à falta de trovoadas, a purificação do ar com tiros de artilharia.

A recorrência de surtos locais e a transmissão para portos europeus e sul americanos entre 1851 e 1857 conferiu ao Rio de Janeiro a fama de cidade pestilenta. Em alguns países a febre amarela era conhecida como “febre do Rio de Janeiro” ou “mal do Brasil”.

Desde os anos 1850 a quarentena imposta aos navios para o controle da febre amarela embaraçava o comércio, motivava frequentes reclamações formais do governo inglês, principal parceiro econômico do país, e acarretava prejuízos consideráveis.

No início dos anos 1870 havia fortes indícios de que a escravidão estava com os dias contados.3 Os grandes fazendeiros pretendiam implantar um amplo programa de imigração em massa de trabalhadores europeus (que só se concretizaria anos mais tarde), mas a febre amarela, que vitimava preferencialmente os imigrantes europeus, impunha-se como importante obstáculo e tornou-se o principal problema sanitário do país.

A idéia de que as doenças deviam-se à "corrupção da substância do corpo" consequente à ação de partículas invisíveis a olho nu, as "sementes do contágio" capazes de passar de um indivíduo a outro, tem origem numa obra de Girolamo Fracastoro, de 1546. Ao conferir materialidade ao contágio o médico italiano firmou um novo conceito. Até então não havia conflito entre as noções de "miasma" e "contágio" herdadas da antiguidade. Não havia distinção clara entre o "contágio" e o "eflúvio miasmático".

No século XIX duas teorias distintas sobre a origem das doenças epidêmicas disputavam a opinião dos médicos e, como vimos, as providências das autoridades do Rio de Janeiro para controlar os surtos atendiam a ambas. Tanto evitar a "transmissão do contágio" quanto afastar a acumulação de "miasmas infecciosos"4.

Microorganismos foram vistos pela primeira vez em 1675 por Leeuwenhoek que, observando uma gota de água com um microscópio simples, percebeu pequenos seres dotados de movimento que chamou "animalículos".

Entre 1857 e 1862 Louis Pasteur demonstrou que os processos de fermentação deviam-se a ação de microorganismos específicos e seu estudo requeria meios de cultura estéreis onde o fermento pudesse ser cultivado puro. Em 1877 identificou o agente etiológico da osteomielite e dos furúnculos (o estafilococo), da infecção puerperal (o estreptococo) e o pneumococo. Em 1880 desenvolveu procedimentos para atenuar a virulência dos micróbios o que lhe permitiu produzir vacinas contra o cólera das aves e contra o carbúnculo.

Durante a segunda metade dos anos 1870 Robert Koch aperfeiçoou os métodos de observação das bactérias (coloração, etc.), desenvolveu meios de cultura sólidos que facilitavam a obtenção de culturas puras, e estabeleceu critérios para o reconhecimento de um microorganismo específico como agente etiológico de uma dada doença, os "postulados de Koch"5. A microbiologia firmava-se como disciplina científica.

Os trabalhos de Pasteur e Koch tiveram extensa repercussão. Inúmeros cientistas puseram-se a buscar bactérias responsáveis por doenças conhecidas. De meados dos anos 1870 ao fim da década seguinte foram identificados os agentes etiológicos de várias doenças: lepra (A. Hansen, 1874), blenorragia (A. Neisser, 1879), febre tifóide (Karl Eberth, 1880), tuberculose (Koch, 1882), cólera (Koch, 1883), difteria (Edwin Klebs, 1883), tétano (A. Nicolaier, 1884), cancro mole (A. Ducrey, 1889).

Por outro lado, como veremos, vários pesquisadores, apesar da obstinação, do entusiasmo e do empenho em seus trabalhos, não lograram êxito.

No verão de 1879-80, em meio a uma epidemia que deixaria mais de 1.600 mortos, Domingos José Freire, médico conceituado, catedrático da Faculdade de Medicina, anunciou pelos jornais ter identificado o germe da febre amarela, o "Crytococo xantogênico", um micróbio "da espécie das algas" que assumia diferentes formas conforme a fase evolutiva e produzia esporos capazes de contaminar “as águas, o ar, a terra, os alimentos frios, os cemitérios e as enfermarias”. Atribuiu suas propriedades patogênicas às transformações evolutivas, relacionando-as às características clínicas da doença (a icterícia e o vômito negro).

Ao mesmo tempo propunha injeções subcutâneas de salicilato de soda como "tratamento científico", que considerava mais eficaz do que os métodos empíricos preconizados à época. Enfrentou forte oposição dos que acreditavam ser a febre amarela consequência de miasmas, dos alopatas e homeopatas que defendiam os próprios princípios clínicos e terapêuticos, e dos diversos produtores de remédios apregoados como cura garantida da moléstia. Em março a inoculação do salicilato em doentes humanos recebeu chancela oficial.

Identificado o germe Freire voltou-se para a produção de uma vacina. Em agosto de 1883 apresentou o resultado de suas pesquisas ao ministro do Império: o Cryptococo atenuado inoculado pelo método da escarificação da pele (tal como na vacinação contra a varíola) antes do início do verão seria um meio prático e eficiente de proteger a população. Foi nomeada uma comissão para confirmar tais observações por meio de estudos em voluntários.

No início de outubro divergências administrativas entre o ministro e a Junta Central de Higiene Pública levaram à renúncia coletiva de seus membros e à dispersão da comissão.
Freire tornou-se presidente da nova Junta, que decidiu recomendar a extensão da vacinação a toda população e fez publicar anúncios nos jornais convidando as pessoas a submeter-se gratuitamente à vacinação, novo serviço regular do Instituto Vaccínico
6. Logo a experiência se expandiu. Equipes de vacinadores percorriam cortiços e hospedarias, onde vivia a maior parte dos trabalhadores imigrados, inoculando quem se dispusesse.

 

 

No final do ano d. Pedro II visitou o laboratório de Freire na Faculdade de Medicina, o que fez aumentar o prestígio do professor.

As inoculações "experimentais" começaram em outubro de 1883. No início de maio do ano seguinte 418 pessoas haviam sido vacinadas. Durante a epidemia do verão de 1883-4 ocorreram mais de 650 óbitos em pessoas não vacinadas. Entre os 418 vacinados apenas sete (1,6%) morreram. Tais números o levaram a concluir que o desempenho de sua vacina era superior ao da antivariólica.7

Apesar do entusiasmo de Freire e do apoio oficial recebido havia muito ceticismo tanto quanto à eficácia da vacina quanto ao próprio micróbio. Na Academia o assunto foi intensamente discutido e apesar de não se ter tomado posição oficial, a maioria dos oradores expressava descrença quanto aos resultados da vacinação.

Às vésperas do verão de 1884-5 as inoculações se intensificaram. Membros da extinta comissão encarregada de avaliar a vacina declararam publicamente não poder atestar sua "inocência". Consideravam que Freire não inoculava "o líquido profilático da febre (mas) coisa pior: a dúvida!". O Jornal do Commercio censurou a pressa com que Freire promovia experiências com seres humanos sem uma teoria legitimadora, sobretudo quando outros pesquisadores chegavam a resultados divergentes.

Em junho de 1883, pouco antes de Freire anunciar sua vacina, João Baptista de Lacerda apresentara à Academia de Medicina a "verdadeira causa da febre amarela". O Fungus febris flavae, uma alga microscópica que, à semelhança do Cryptococo, modificava-se segundo as condições climáticas, o que conferia a sazonalidade característica da doença.

Tanto o Crytptococo quanto o "fungo" de Lacerda foram apreciados na Academia Francesa de Medicina. O relatório do dr. Jules Rochard, de maio de 1884, pontuava que "os sábios do Rio de Janeiro" faziam "descobertas sempre completas; não deixam aos outros nada para ser ainda encontrado". Reconhecia a boa fé de Freire mas receava que "como aconteceu com o sr. Lacerda, tenha sido logrado pelas ilusões" e acrescentava: "Quando as ilusões do microscópio só conduzem a teorias arriscadas (...) observações novas se encarregarão de separar a verdade do erro, mas quando se transportam essas visões para o terreno da prática a coisa muda de figura".

Logo após a divulgação do parecer de Rochard o presidente da Academia Imperial de Medicina solicitou informações sobre doentes vacinados aos clínicos cariocas. O dr. Araújo Goes 8 comunicou que, no Morro da Viúva, das 44 pessoas inoculadas 22 adoeceram das quais nove morreram. A seu ver a vacina "em vez de impedir, favorece a explosão da febre amarela".

Em novembro a Academia ponderou que Rochard evidenciara a precariedade das teorias a respeito do contagio da febre amarela, portanto não seria prudente autenticar uma vacina cuja imunidade mostrava-se "problemática". Deste modo recomendava a suspensão da vacinação.

Apesar das contestações a vacinação continuou. A vacina tinha grande aceitação entre as classes populares e imigrantes que temiam o "vômito preto". No período de 1884-85 foram vacinadas 3.051 pessoas e, mesmo após a recomendação da Academia, outras 3.473 receberam a vacina em 1885-86.

Freire tomou posse na Academia em maio de 1885. O Cryptococo e a vacina estavam na pauta dos debates e as contestações se avolumavam. O dr. Nuno de Andrade, inspetor-geral de saúde dos portos, reiterava que a vacinação carecia de base científica. Araújo Goes contestava a existência do Cryptococcus, os germes que Freire vira seriam apenas hemácias alteradas. Após algumas sessões de embates acirrados em defesa de suas descobertas e da vacinação, declarou que não voltaria à tribuna para tratar do assunto. Em outubro a Academia aprovou uma resolução firmando que não estava habilitada a formar juízo definitivo sobre a questão.

Muitos pesquisadores buscavam o micróbio da febre amarela, todos pretendiam chegar a uma vacina eficaz que livrasse o comércio internacional de quarentenas onerosas e desimpedisse a exploração da África e das Américas. Lacerda não era o único concorrente de Freire. Ainda em 1881 o mexicano Manoel Carmona y Valle afirmara ter encontrado, nos humores de amarelentos, um cogumelo polimorfo que denominou Peronospora luteum. Em 1885 já teria "vacinado" cerca de 250 pessoas9. O cubano Carlos Finlay defendia, desde 1881, a tese de que a transmissão da febre amarela dependia da mediação do mosquito. Embora a identificação do agente etiológico não fosse sua prioridade, apresentou o Micrococcus tretagenus febris flavea como causa da doença.

As querelas a respeito da etiologia da febre amarela envolviam interesses de diversas instituições e de inúmeros pesquisadores em diferentes países. Cientistas chamados a chancelar descobertas de colegas não se constrangiam em colocar seus próprios micróbios no lugar dos que desqualificavam. Exonerado da Junta de Higiene em janeiro de 1886, Freire viajou à Europa em dezembro à procura de apoio a suas teses. Em Paris apresentou, em co-autoria com os drs. Rebourgeon e Gibier, duas comunicações à Academia de Ciências. Outras instituições publicaram resumos. Recebeu o título de membro honorário da Sociedade Francesa de Higiene e proferiu uma conferência na Sociedade de Terapêutica Dosimétrica cujos dirigentes decidiram recomendar sua vacina aos franceses residentes nas colônias amarelentas.

Retornou ao Brasil em junho. Teve uma recepção apoteótica, foi aclamado pelos estudantes de medicina, por membros do partido e clubes republicanos e por integrantes das sociedades abolicionistas. Em um momento político conturbado Freire expressava o triunfo da ciência nacional, tornou-se ídolo das camadas médias urbanas. Seus feitos insuflavam os sentimentos nativistas dos positivistas que combatiam a monarquia e a escravidão e pretendiam "civilizar" o Brasil. Em agosto participou, em Washington, do IX Congresso Médico Internacional que recomendou aos países acometidos pela febre amarela "atenção à sua vacina".

As viagens à Europa e Washington levaram a popularidade de Freire ao auge. O período de 1888-89 foi de grande expansão da vacinação. Além das 2.144 pessoas vacinadas no Rio de Janeiro outras 1.438 receberam a vacina em cidades do interior fluminense, de Minas Gerais e de São Paulo. Vários médicos, principalmente os vinculados à Sociedade de Medicina e Cirurgia, defendiam a obrigatoriedade da vacinação. Mas apesar dos louros colhidos no exterior e do prestígio alcançado no Brasil a rejeição ao Cryptococo e o ceticismo em relação à vacina persistiam.

Em fins de 1887 Gibier foi a Cuba estudar a febre amarela in loco, não sem antes inocular-se com a vacina de Freire. Aderira à idéia10 de que o agente da febre amarela seria uma bactéria intestinal análoga ao víbrio colérico. Examinando a "multidão de espécies de micróbios" encontrados no tubo digestivo dos doentes deparou-se com um bacilo curvo, produtor de um pigmento negro que conferiria cor ao vômito amarílico e o apontou como responsável pela doença. Proferiu uma conferência em Havana afirmando que suas novas observações refutavam "de maneira absoluta" as teses de Freire, "de quem tenho o pesar ao mesmo tempo que o dever de me separar".

No início do mesmo ano George Sternberg, médico do exército norte americano, fora incumbido de verificar os achados sobre o agente da febre amarela e validar as vacinas produzidas nos países do continente. Visitou Freire e Carmona, chegou a conclusões "definitivas" sobre a ineficácia de suas vacinas. Após um ano e meio de buscas, que incluíram investigações durante epidemias em Cuba, na Flórida e no Alabama, concluiu que entre os microorganismos encontrados nas próprias culturas ou nas de outros investigadores (Freire, Carmona, Finlay, Gibier) "não há nenhum que (...) possa ser apresentado inequivocamente como o agente infeccioso específico dessa doença".

O relatório, publicado em 1890, foi amplamente reconhecido no meio científico internacional como evidência inconteste de que, até então, nenhuma das tentativas de identificar um agente etiológico e chegar a uma vacina eficaz contra a febre amarela tivera êxito. O Instituto Pasteur, que até então se mantivera à margem das polêmicas, corroborou as conclusões de Sternberg.

No Brasil Freire continuava a vacinar. Em dezembro de 1890 recebeu o Laboratório de Bacteriologia do governo republicano provisório a fim de produzir e inocular a vacina. Promulgada a constituição de 1891 houve uma ampla reforma nos órgãos da saúde pública. Em 1892 o Laboratório de Bacteriologia incorporou funções da extinta Inspetoria de Higiene e foi vinculado diretamente ao Ministério do Interior. Oficiosamente tomou o nome de "Instituto Bacteriológico Domingos Freire", instituição oficial com evidente vínculo privado com seu dirigente.

Uma das primeiras publicações do Instituto tratava da "febre biliosa dos países quentes”. Segundo Freire uma variedade de malária causada por um novo bacilo, similar a outros agentes malarígenos. A afirmação negava o hematozoário de Laveran como agente único de qualquer malária e provocou vigorosa reação de ex-alunos seus que colaboravam com as pesquisas do cientista francês.

Os ex-discípulos11 foram ao laboratório do antigo mestre a pretexto de ver o novo bacilo. Declaram-se decepcionados: a cultura que lhes foi apresentada estaria "impuríssima" e as estruturas alongadas nas amostras de tecido renal, descritas por Freire como bacilos, seriam núcleos de células conjuntivas.

A ofensiva ao bacilo da febre biliosa, logo estendida ao "Micrococo xantogênico",12 dirigia-se ao Instituto de Freire que tinha sua vacina e seus micróbios avalizados pelo financiamento estatal. Os ex-discípulos integravam uma nova geração de cientistas mais afinada às teorias e técnicas microbiológicas incessantemente aperfeiçoadas. Trabalhavam em laboratórios próprios e lutavam por uma política institucional de pesquisa patrocinada pelo Estado, o que implicava na suspensão dos subsídios ao Laboratório Bacteriológico, órgão hibrido, oficial e privado. Procuravam desmoralizar as pesquisas de Freire revelando a precariedade de suas técnicas e procedimentos.

Em meados de 1894 a polemica chegou à imprensa leiga. Os dois lados atacavam-se mutuamente procurando desacreditar o adversário tanto com acusações de despreparo técnico e científico quanto com desacatos pessoais. Alardeavam os argumentos favoráveis às próprias posições manifestados por cientistas cuja autoridade julgavam incontestável. Ao mesmo tempo tentavam desqualificar aqueles arrolados pelo oponente. A discussão exauriu-se em poucos meses sem apontar vencedores mas acentuou o isolamento do velho professor no meio acadêmico.

Em setembro Freire foi convidado a coordenar uma seção do Congresso Internacional de Higiene e Demografia em Budapeste. Não compareceu, enviou uma monografia a ser lida pelo delegado oficial do Brasil, dr. Augusto Miranda de Azevedo. Logo foi divulgada a notícia de que o congresso aprovara a vacina brasileira como meio mais seguro de prevenir epidemias de febre amarela.

Sousa Lima, presidente da Academia de Medicina, afirmou da tribuna que Freire mentia e que solicitara cópia dos anais do evento para desmascará-lo. Nosso protagonista reagiu a seu modo, renunciou à Academia com grande escarcéu. Reclamou que as resoluções de Washington e Budapeste seriam a "sanção final" a suas pesquisas e sua vacina.

As acusações não impediram que Freire continuasse a vacinar. No final de 1895, apoiado na "sanção de Budapeste", deflagrou intensa propaganda em defesa de seu Instituto. Remeteu ao Congresso uma "exposição sumária" sobre a eficácia dos meios de "cura e prevenção da febre amarela" que preconizava. Publicou os dados das vacinações desde 1883 e o relatório das atividades do ano que findava, quando lotes da vacina foram remetidos a cidades do interior e a países das Antilhas. Passou a ministrar "conferências experimentais" durante as quais entretinha o público médico e leigo com projeções fotográficas e observações ao microscópio. Em outubro de 1896 enviou ao Congresso uma petição com 1.355 assinaturas reivindicando a generalização da vacinação. Em novembro divulgou um manifesto "Aos nossos cidadãos! Ao mundo científico!" alertando sobre a necessidade de vacinar a população sem demora ante a iminência de novo período epidêmico.

No mesmo mês os anais do congresso de Budapeste foram apresentados em sessão da Academia. Não havia nada sobre qualquer sanção à vacina, apenas uma referência à leitura da monografia, que não fora discutida ou votada. A assembléia final não fazia menção à febre amarela. Seidl propôs uma moção condenando Freire pela mentira. Foi aprovada por unanimidade. Acuado, o acadêmico renegado alegou que os anais estariam incompletos (faltavam dois de cinco volumes) e transferiu a responsabilidade para Azevedo. Os termos da carta que recebera, relatando a acolhida à monografia, o teriam levado a concluir pela sanção. A "sanção de Budapeste" terminou por abalar o prestígio de sua vacina, a credibilidade de suas teorias e a legitimidade de seu Instituto.

No Rio de Janeiro a febre amarela mantinha a rotina mórbida de todo verão13. As preocupações com a doença cresciam na mesma proporção dos problemas econômicos que provocava. Não havia dúvida de que era indispensável sanear a capital mas o mistério da febre amarela emperrava qualquer ação. Entre médicos e pesquisadores era consenso que não se sabia nada sobre as causas dos surtos. O parlamento propôs um prêmio a quem desvendasse o mistério.

No início de 1896 Giuseppe Sanarelli, bacteriologista conceituado na Europa, chegou a Montevidéu para dirigir o recém criado Instituto de Higiene Experimental. Em junho veio ao Rio de Janeiro onde permaneceu cerca de um mês. Interessado na febre amarela colheu informações, examinou doentes, fez necrópsias e obteve material para futuros exames de laboratório. Frequentou regularmente o Hospital São Sebastião (dirigido por Seidl) e o laboratório do Instituto Sanitário Federal (dirigido por Fajardo).

Em janeiro de 1897 correram rumores de que finalizara suas pesquisas e remetera um envelope lacrado à Academia de Medicina de Roma garantindo a prioridade da descoberta. Em junho o "bacilo icteróide" foi anunciado publicamente com grande pompa. Lacerda e Fajardo repercutiram a descoberta do italiano na Academia Nacional de Medicina e na Sociedade de Medicina e cirurgia corroborando seus achados.

Persistiam questões sobre a caracterização do bacilo e dificuldades para sua purificação, mas as amostras já isoladas levaram Sanarelli a tentar produzir um soro terapêutico. Os resultados foram desanimadores (de 22 pacientes tratados seis morreram) e o soro considerado sem eficácia terapêutica ou profilática. A descoberta de Sanarelli, cientista de prestigio, provocara grande expectativa no Rio de Janeiro mas não foi capaz de apontar qualquer solução para os problemas da cidade.

As controvérsias a respeito da febre amarela revelavam as incertezas da ciência e causavam perplexidade. A profusão de bacilos, soros e vacinas, sempre anunciados como solução de um enigma que se mostrava insolúvel deixava a população desorientada. As causas dos surtos, as medidas de controle capazes de evitá-los, o tratamento mais eficaz e seguro, tudo continuava desconhecido. O impasse entre os adeptos das diferentes posições parecia insuperável.

Freire morreu em 21 de agosto de 1899 defendendo sua vacina, que perdera muito da credibilidade, e seu Instituto, laboratório pioneiro decaído à condição de sinecura vitalícia14. A notícia deflagrou inúmeras homenagens. Uma multidão acorreu ao velório, a Faculdade de Medicina e o Liceu de Artes e Ofícios decretaram oito dias de luto, discursos foram pronunciados na Câmara e no Senado, representantes de instituições públicas, entidades profissionais e sociedades acadêmicas, inclusive da Academia de Medicina, prestigiavam as solenidades. As honrarias póstumas logo se dissolveram, em pouco tempo Freire, seu Micrococo e sua vacina estariam esquecidos.

Em 1900, vinte anos após Finlay identificar o mosquito Stegomyia fasciata15 como transmissor da febre amarela, uma equipe de médicos do exército americano chefiada por Walter Reed confirmou sua hipótese. As experiências dos americanos em Cuba mostravam que ações de combate ao mosquito minimizavam os surtos. A identificação do agente etiológico deixou de ser prioritária. O enigma de febre amarela estava desvendado, a saúde pública livrou-se de um impasse e o saneamento do Rio de Janeiro finalmente poderia sair do papel.

Pouco antes da morte de Freire Oswaldo Cruz fora eleito membro da Academia de Medicina, tomou posse em 24 de agosto. Meses depois assumiu a direção técnica do Instituo Soroterápico Federal montado numa fazenda em Manguinhos para produzir o soro antipestoso. Seria o principal protagonista da reforma sanitária da capital desencadeada na primeira metade dos anos 1900.

Desde o final da década de 1890 demonstrara-se que o mosaico do tabaco podia ser transmitido pela pulverização da seiva de uma planta doente, passada por um filtro capaz de reter células bacterianas sobre outra sadia. "Vírus filtráveis" passaram a integrar o panteão dos agentes patogênicos. Em 1901 a transmissão da febre amarela pela injeção subcutânea do filtrado do soro sangüíneo de um enfermo indicava que o agente da doença seria um vírus (do latim "veneno") e não uma bactéria. Os vírus foram isolados em cristais em meados dos anos 1930, mas só puderam ser visualizados na década de 1940, com o advento da microscopia eletrônica.

O vírus da febre amarela possui uma molécula de RNA de fita simples, pertence ao gênero Flavivirus (do latim flavus = amarelo) o mesmo de outros vírus responsáveis por doenças humanas, entre os quais o Dengue, o West Nile, o Rocio e a encefalite de St.  Louis.

Guido Palmeira, junho de 2018.


Bibliografia de interesse

Franco, Odair. História da febre amarela no Brasil. Rio de Janeiro: DNER, Div. de cooperação e divulgação, 1969.

Benchimol, J. L.: Domingos José Freire e os primórdios da bacteriologia no Brasil. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, II (1): 67-98, mar.-jun., 1995.

Benchimol, J. L. - Dos Micróbios aos Mosquitos: febre amarela e a revolução pasteuriana no Brasil. Rio de Janeiro. Editora FIOCRUZ/Editora UFRJ, 1999.


NOTAS

1 O termo "febre amarela" aparece em 1750 no livro "Natural History of Barbadoes", de Griffith Hughes.

2 Passagem do "contagio" de uma pessoa a outra, diretamente ou através de fômites.

3 A intensificação da pressão inglesa, o endurecimento da repressão ao trafico negreiro desde 1850 (lei Eusébio de Queirós) e a lei do ventre livre (1871).

4 Não havia consenso sobre a natureza da febre amarela. Se "contagiosa", devida a um "contágio" que podia ser levado de um lugar (cidade, porto, ...) a outro, ou "infecciosa", consequênte a "miasmas" produzidos por fatores locais (clima, salubridade, ...). Havia ainda a hipótese de que o "contágio”, uma vez introduzido em um ambiente favorável se "aclimatasse", tornando o lugar "pestilento".

5 1- O agente deve ser encontrado em todos os doentes. 2- Deve ser isolado do doente e mantido em cultura pura. 3- A cultura, inoculada em um novo indivíduo, deve reproduzir a doença. 4- O agente deve ser recuperado no individuo inoculado, novamente isolado em cultura pura e identificado.

6 Órgão oficial responsável pela distribuição da vacina antivariólica.

7 Sobre os malabarismos estatísticos de Freire ver Bechimol, 1999.

8 Antigo parceiro de Freire que se tornou colaborador de Lacerda.

9 Os métodos e técnicas do mexicano eram bem mais pobres e precários que os de Freire. Sua vacina resumia-se a uma solução do resíduo seco da urina de doentes deixada evaporar em pratos rasos.

10 Sugerida por Koch a Le Dantec e abraçada por Sternberg e Tamayo.

11 Francisco Fajardo, Chapot Prévost e Benedito Otoni, Carlos Seidl se juntaria ao grupo pouco depois.

12 A taxonomia dos microorganismos não estava bem estabelecida e Freire rebatizou seu micróbio após a viajem à Europa, onde percebeu certa resistência ao nome original.

13 Mais de 4.800 óbitos em 1894 e quase 3 mil em 1896.

14 A subvenção devida pela prefeitura ao Instituto foi disputada pelo sucessor oficial do diretor e o inventariante do espólio de Freire, que acabou embolsando a "pensão" municipal.

15 Mais tarde renomeado Aedes aegypti.